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Não aguento mais ouvir falar em crise. Sério mesmo. Sinto um arrepio quando estou vendo um telejornal e começam alguma notícia sobre isso. Não que eu queira viver em uma redoma de vidro, sem saber do que acontece ao meu redor, e também não é por excesso de otimismo em relação ao momento que estamos vivendo – este sentimento, aliás, passa longe do que penso. E claro que ela já bateu na minha porta, infelizmente. Qual assalariado ainda não sentiu suas consequências? Impossível.

Sei que muitas pessoas perderam seus empregos, muitas já tiveram seus salários reduzidos. Mas, sinceramente, apesar de saber que a crise é real, acredito piamente que muitas empresas se aproveitam dela para cortar gastos e, consequentemente, aumentar seus lucros. Quantas pessoas não tiveram que aceitar redução em seus salários para não perderem o emprego? Claro que, em alguns casos, essa pode ser uma solução, mas será que nenhum empregador se aproveita disso para ganhar mais? Quantas pessoas estão sendo pressionadas para demonstrar resultados e, com isso, garantir o seu emprego, e com o mesmo salário irão desempenhar as funções de mais de um funcionário? Não é fácil…

Será que estou delirando e isso não existe? Ou existe realmente? Esta é a minha análise do que venho percebendo há algum tempo – só não sei o quão falha a minha percepção pode estar. Ou talvez eu faça estas afirmações / desabafo porque não aguento mais ver explorações / injustiças no trabalho – eu mesma tenho sentido isso na pele.

Para quem infelizmente perdeu o emprego, não tem jeito: é hora de arregaçar as mangas e reverter a situação. Para quem tem um subemprego, como eu, e também deseja reverter a situação, encontrei estas “13 dicas infalíveis para conquistar o emprego dos sonhos”.

Não custa tentar… No máximo, vai desperdiçar algumas folhas impressas com o seu currículo (torça para que reaproveitem o envelope e utilizem o verso como rascunho, precisamos reutilizar para salvar o planeta; se você não conseguir o emprego, pelo menos não vai aumentar a poluição) e passes de ônibus. Ok, não dá para desperdiçar vale-transporte numa época como essa, então vá caminhando, e antes de chegar na empresa, tire o tênis e coloque um sapato. Boa sorte!

Julho de 2003. Final de mês, e eu ainda aguardando o contato da empresa de call center para fazer o treinamento. Estava de férias da faculdade e nem pude viajar para a casa de meus pais, para não perder a esperada ligação.

Quando finalmente recebi a ligação… Que alívio! Enfim um emprego e sossego para concluir meu curso. Ingênua garota, mal sabia o que me aguardava!

Foi uma semana de treinamento, cerca de 4 horas por dia, com vale-transporte fornecido pela empresa e lanche diário. Mesa farta, com suco, café, refri, salgadinhos e quitandas. Parecia até que a comilança dizia: “aproveitem, comam agora, porque depois, com 15 minutos de intervalo, incluindo o tempo para usar o banheiro, sem falar nos altos preços da lanchonete e nas filas dos microondas, vocês não vão mais conseguir comer, hahahaha”. Juro que olhava para a comida e pensava isso.

Durante os treinamentos visitamos também todas as instalações da empresa, que é muito grande, por sinal, e ostenta tecnologia por todos os lados. Você olha para a cara dos outros treinandos e estão todos maravilhados, extasiados com o desenvolvimento do local e profundamente agradecidos por venderem sua mão-de-obra extremamente barata naquela empresa.

Eu via tudo aquilo com muita desconfiança. Entrava naqueles banheiros imaculados e do tamanho da minha casa inteira e pensava: provavelmente as coisas aqui não devem cheirar tão bem quanto o desinfetante que eles usam para limpar o local. Não acreditava que eles queriam tanto o bem do associado (sim, eles não falam funcionário nem empregado, é associado, embora não paguem participação nos lucros). Tudo me lembrava o taylorismo, e quando eu dizia isso para alguém, era chamada de comunista. Por favor, alguém explica para esse povo o que é comunismo? Com certeza, eles não sabem…

Quanto ao treinamento… Ia trabalhar no atendimento receptivo-ativo, vendendo créditos para celulares pré-pago pelo cartão de crédito. Aprendemos como utilizar os programas do sistema, as técnicas de vendas, e o que mais me chamou a atenção: que não devíamos utilizar o gerundismo, aquele crucificado vício de linguagem. Só estranhei o fato de a própria treinadora utilizar este vício o tempo todo.

Após o treinamento, fui toda feliz e contente fazer a minha carteira de trabalho, pois ainda não tinha. Agora, mais uma vez, precisava aguardar a ligação para assinar a papelada da contratação e começar a trabalhar.

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Vagas para monitoria: uma fila para conseguir R$73 mensais...

Março de 2001. Anúncio de 3 vagas para monitoria remunerada no meu curso. Feita a inscrição, é chegada a hora da entrevista:

_ Duração da monitoria: 6 meses. Carga horária semanal: 12 horas. Remuneração: R$ 73 mensais. De acordo?

_ Ok.

_ Como você está há um ano no centro de documentação como voluntária, e isso vale pontos na classificação. Afinal, você já conhece o trabalho, já tem experiência…

_ Posso perguntar uma coisa?

_ Sim.

_ Tem uma vaga no museu etnográfico, não?

_ Tem, e você se interessa? Teria que aprender o serviço novamente.

_ Mas gosto muito de antropologia, seria muito bom aprender coisas novas.

_ E ele fica bem longe da universidade! Tem que ir de ônibus!

_ Não tem problema…

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Vale-transporte: praticamente um assalto à mão armada!

Resultado da seleção: consegui a vaga no museu etnográfico. R$73 a bolsa da monitoria. Com o vale-transporte, gastaria quase a metade desse valor.

Fui em uma loja de calçados e comprei um tênis novo, parcelando em 3 vezes. Bem mais barato que o vale- transporte. E mais seguro que uma bicicleta.

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Tênis pra que te quero!