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Hoje, 14 de março de 2010, foi veiculada uma reportagem sobre acidentes de trabalho nas fábricas dos calçados Azaleia localizadas na Bahia, no programa Domingo Espetacular, da Rede Record.

A chamada da matéria me surpreendeu, afinal me recordo da participação dessa empresa em ações sociais como o Criança Esperança. Mas como pode uma empresa defender causas sociais e ignorar os seus próprios funcionários? E foi justamente o descaso e desrespeito com seus funcionários o mote desta reportagem.

A empresa, que é originária da região sul do país, abriu fábricas no Nordeste, atraída pelos incentivos fiscais oferecidos pelos Estados para melhorar a oferta de empregos na região, o que aumenta seus lucros, obviamente.

Entretanto, os funcionários contratados não receberam o treinamento suficiente para lidar com segurança com as máquinas utilizadas na fabricação de calçados. E qual o resultado? Acidentes de trabalho que mutilaram diversos empregados.

Muitos deles deram depoimentos aos repórteres afirmando que não foram treinados corretamente para suas funções. Dois funcionários  até afirmaram que seus acidentes ocorreram quando foram obrigados a executar a função de outros funcionários que tinham faltado ao trabalho, ou seja, em atividades e máquinas que lhes eram desconhecidas.

A empresa se defende dizendo que “os funcionários fizeram isso de propósito, a fim de ganharem indenizações e aposentadoria”. Agora eu pergunto: que pessoa em idade economicamente ativa, com sonhos de crescer profissionalmente, colocaria seu braço para ser arrancado em uma máquina e viver com um salário mínimo pago mensalmente pelo INSS? Podem me chamar de ingênua, mas não acredito nisso. Claro que podem existir pessoas que tentem se aproveitar de alguma situação e forjar um acidente, mas acho que isso seja mais comum acontecer em alguma novela da Glória Peres (em “Caminho das Índias”, o advogado corrupto interpretado por Antônio Calloni procurava trabalhadores em obras e incentivava a quebrar o pé para pedir indenização, lembram?).

Além de culpar os funcionários, a empresa não indenizou ninguém nem ofereceu auxílio. Para embasar sua defesa, ainda divulgou números para comprovar que os índices de acidentes de trabalho diminuiram bastante.

Nenhuma empresa está livre de acidentes de trabalho. O que nós devemos questionar é como elas preparam seus funcionários para o exercício de atividades com alto grau de periculosidade, se ela oferece equipamentos de segurança, se a enfermaria está apta a atender algum caso de acidente com rapidez e eficiência. Um empregado que sofreu acidente na Azaleia afirmou que o socorro demorou 1 hora e meia para chegar. Isto é um absurdo!

Procurei na Internet a reportagem na íntegra, mas o vídeo ainda não foi postado pela Rede Record. No Google também fiz uma busca, mas não encontrei nada sobre o tema. Mas vou continuar de olho, quero ver como a empresa vai se posicionar sobre o assunto, ou se ele, simplesmente, será esquecido.

Enquanto isso, calçados Azaleia não compro mais! Cabe aos consumidores demonstrarem sua indignação com a empresa e não comprarem seus produtos. Só assim, quando elas sentirem o resultado de suas ações em cifras, elas mudarão sua postura. Uma empresa deve ser idônea e transparente, e isso deve começar na maneira como lidam com seus funcionários.

Pensem nisso!

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Julho de 2003. Final de mês, e eu ainda aguardando o contato da empresa de call center para fazer o treinamento. Estava de férias da faculdade e nem pude viajar para a casa de meus pais, para não perder a esperada ligação.

Quando finalmente recebi a ligação… Que alívio! Enfim um emprego e sossego para concluir meu curso. Ingênua garota, mal sabia o que me aguardava!

Foi uma semana de treinamento, cerca de 4 horas por dia, com vale-transporte fornecido pela empresa e lanche diário. Mesa farta, com suco, café, refri, salgadinhos e quitandas. Parecia até que a comilança dizia: “aproveitem, comam agora, porque depois, com 15 minutos de intervalo, incluindo o tempo para usar o banheiro, sem falar nos altos preços da lanchonete e nas filas dos microondas, vocês não vão mais conseguir comer, hahahaha”. Juro que olhava para a comida e pensava isso.

Durante os treinamentos visitamos também todas as instalações da empresa, que é muito grande, por sinal, e ostenta tecnologia por todos os lados. Você olha para a cara dos outros treinandos e estão todos maravilhados, extasiados com o desenvolvimento do local e profundamente agradecidos por venderem sua mão-de-obra extremamente barata naquela empresa.

Eu via tudo aquilo com muita desconfiança. Entrava naqueles banheiros imaculados e do tamanho da minha casa inteira e pensava: provavelmente as coisas aqui não devem cheirar tão bem quanto o desinfetante que eles usam para limpar o local. Não acreditava que eles queriam tanto o bem do associado (sim, eles não falam funcionário nem empregado, é associado, embora não paguem participação nos lucros). Tudo me lembrava o taylorismo, e quando eu dizia isso para alguém, era chamada de comunista. Por favor, alguém explica para esse povo o que é comunismo? Com certeza, eles não sabem…

Quanto ao treinamento… Ia trabalhar no atendimento receptivo-ativo, vendendo créditos para celulares pré-pago pelo cartão de crédito. Aprendemos como utilizar os programas do sistema, as técnicas de vendas, e o que mais me chamou a atenção: que não devíamos utilizar o gerundismo, aquele crucificado vício de linguagem. Só estranhei o fato de a própria treinadora utilizar este vício o tempo todo.

Após o treinamento, fui toda feliz e contente fazer a minha carteira de trabalho, pois ainda não tinha. Agora, mais uma vez, precisava aguardar a ligação para assinar a papelada da contratação e começar a trabalhar.

Há vagas?

Há vagas?

Julho de 2003. Fim do estágio, sem nenhuma possibilidade de renovação do contrato, por motivos burocráticos. O tempo se esgotara e não havia nada a fazer. Foi um mês de choramingos e intermináveis despedidas.

Minha única alternativa era sair em busca de um novo emprego. Afinal, ainda restava um ano e meio de curso para conseguir meu diploma.

Essa busca não foi nada fácil. Descobri que ter um curso universitário no currículo pode atrapalhar ao invés de ajudar na hora da procura. Por exemplo, quando levei meu currículo para uma vaga em uma lojinha de fotocópias, o gerente se assustou: “mas você está fazendo universidade, e é uma vaga para tirar fotocópias!”. Respondi: “eu sei, preciso de trabalho, não posso me dar ao luxo de escolher a vaga, o que eu conseguir está de bom tamanho”. Essa argumentação não o convenceu, e ele respondeu que, por eu ter uma formação superior, poderia arrumar um emprego melhor e deixá-lo na mão, ou então reivindicar salário melhor. Perdi a vaga.

Não sei quantos currículos deixei nesta pequena cidade de seiscentos mil habitantes. Apenas uma empresa estava contratando: a maior empresa de telemarketing da cidade. Aliás, esta empresa sempre contrata novos funcionários, não importa a época do ano, e tal fato se justifica pela grande rotatividade da mão-de-obra. Ou seja, isto não era um bom sinal.

Quando a situação ficou insustentável (contas vencidas + geladeira vazia + desespero = aceito qualquer emprego), um colega levou meu currículo para a tal empresa. No mesmo dia ligaram marcando uma entrevista para o dia seguinte. Na verdade, uma dinâmica. Passei.

Na semana seguinte, testes de audiometria e fonoaudiologia. Audição e dicção, passei. Em seguida, a parte considerada mais “difícil” segundo os recrutadores: uma redação e uma prova de português ridícula. Passei com folga…

Acabou? Claro que não! Era uma vaga de telemarketing, eu tinha que provar que era boa o suficiente para dizer “fulana de tal, bom dia, em que posso estar lhe ajudando? um momento, por favor, que vou estar transferindo sua ligação”. Tive que passar por mais uma dinâmica e, finalmente, uma entrevista que me qualificaria – ou não – para o treinamento, este também de caráter eliminatório. Ufa!!!

Após esta maratona, fui informada de que tinha que aguardar uma ligação marcando o meu treinamento…