Longas jornadas de trabalho em condições insalubres, salários miseráveis e péssima situação de moradia. Não, não estou falando da Inglaterra no período da Revolução Industrial, no século XVIII. Refiro-me ao Brasil em pleno século XXI. E o cenário deste trabalho quase escravo não são fazendas de cana-de-açúcar, como estamos acostumados a ver nos noticiários. Desta vez, oficinas de costura servem como pano de fundo para a notícia.

Hoje, ao ler a Revista Época do dia 4 de abril, deparei-me com esta reportagem absurda: as Pernambucanas, uma das maiores varejistas do país, foram multadas em R$ 2,2 milhões por ter fornecedores que empregam bolivianos em condições de trabalho semelhantes à escravidão.

Sabemos que as grandes lojas de departamentos (como Marisa, Renner, Riachuelo e C&A, por exemplo) não fabricam as roupas que vendem, apenas criam as peças, que são encomendadas a fornecedores (pegue uma peça de qualquer uma dessas lojas e veja que existe uma etiqueta com o código do fornecedor e respectivo CNPJ). No caso das Pernambucanas, seus fornecedores também terceirizam a produção destas roupas. E, na base desta pirâmide de produção, foi encontrada uma oficina irregular, localizada em um bairro residencial de São Paulo.

No local, viviam e trabalhavam 16 bolivianos (incluindo menores de 18 anos), trazidos de seu país de origem com a promessa de emprego e ótimos salários. Entretanto, a realidade era bem diferente: cada trabalhador recebia R$ 0,20 por peça produzida, mas tinha descontado de seus rendimentos o valor da passagem, alimentação, fralda, cartões telefônicos e moradia (por moradia, leia-se: colchões no chão e banheiro com água fria, em um local imundo), o que os levava a trabalhar cada vez mais para amortizar os débitos (é o chamado regime de servidão por dívida). Após os descontos, cada um recebia entre R$ 150,00 e R$ 200,00.

Após a autuação, as Pernambucanas se defenderam dizendo que a empresa “sempre tomou ações concretas, como o compromisso por contrato de que as fornecedoras respeitem a legislação trabalhista” (p. 59). Entretanto, fica a pergunta: por que não houve fiscalização para verificar se tal cláusula estava sendo cumprida? Ter seu nome associado a trabalho escravo e exploração é inaceitável para uma empresa. Eu, pelo menos, não sei se teria coragem de entrar na loja novamente, pois sentiria como se compactuasse com a situação. Mas o problema é ainda pior: quantas empresas no Brasil podem utilizar mão-de-obra escrava sem que a gente nem imagine? Complicado isso…

E você, o que pensa sobre o assunto? Opine!

Se quiser saber mais sobre o caso, encontrei este vídeo no canal da Revista Época no You Tube:

Até logo!

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