Perturbador. Não creio que exista outro adjetivo que melhor explique o livro “Precisamos falar sobre o Kevin” (Editora Intrínseca), da escritora estadunidense Lionel Shriver. Apesar do desconforto causado pela leitura, a trama prendeu minha atenção e devorei suas 464 páginas em pouco tempo.

Eva Khatchadourian é uma mulher de 54 anos cujo filho de 17 anos, Kevin, está na prisão, após ter realizado um massacre em sua escola secundária nos EUA quando tinha apenas 15 anos, matando sete alunos, uma professora e um funcionário do colégio. Através de cartas que ela escreve ao seu marido ausente, Franklin Plaskett, vamos conhecendo seu passado e sua nova realidade, cujo ostracismo no qual vive é quebrado apenas pelo cotidiano no trabalho em uma pequena agência de viagens e pelas visitas quinzenais ao filho, na cadeia.

Eva é uma mulher bem sucedida, que percorre o mundo todo a trabalho, escrevendo guias de viagem para sua empresa A Wing & A Prayer. Seu marido, Franklin, trabalha escolhendo locações para publicidade. Ambos protagonizam um casamento perfeito e feliz, apesar da Grande Questão: ter ou não ter filhos?

Ela cede aos desejos do marido e, aos 37 anos, dá a luz  a Kevin. Entretanto, surge o grande problema: onde está o tal instinto materno que ela não reconheceu na gravidez, nem mesmo após o parto? Seu bebê parece sentir essa ausência, e ela percebe isso quando ele recusa seu seio, com nojo.

Apesar do cuidado dispensado ao filho e do amor incondicional devotado pelo pai, o desenvolvimento de Kevin é permeado por conflitos: a mãe não consegue se aproximar dele, nenhuma babá permanece no emprego, e o pai faz vista grossa para todos os problemas causados pelo filho, desde o jardim da infância até o ensino médio.

À medida que os problemas entre o filho e Eva se acentuam, seu casamento se desgasta na mesma proporção. Quando Kevin está com 7 anos, Eva engravida novamente, apesar da desaprovação do marido. Quando Celia nasce, a garota prova ser o oposto do irmão: amorosa, dependente, companheira. Franklin, porém, não demonstra muita receptividade com a filha.

A autora, ao utilizar cartas para nos contar a história, consegue nos aproximar dos dramas da personagem principal. Onde foi que eu errei? Estava preparada para ser mãe? É possível odiar o próprio filho? Essa proximidade com as indagações de Eva torna a leitura ainda mais inquietante e provam que, apesar de guias e manuais, a maternidade e a educação dos filhos não são ciências exatas, que podem ser conduzidas corretamente nem tem fórmulas a serem seguidas.

Além disso, o livro também analisa de forma crítica os massacres cometidos nos EUA desde meados dos anos 90, e que se sucedem até hoje. Quem não se recorda do massacre de Columbine? O livro critica, ainda, a forma como a mídia banaliza este tipo de violência.

As últimas páginas do livro são eletrizantes e surpreendentes. Se você gosta de livros de ficção escritos a partir de fatos reais, esta é uma excelente opção.

Recomendo!

 

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