“Assim, precisamos rever o conceito de trabalho e sua prática, de tal forma que passe a ser significativo e pleno para o trabalhador, útil para a sociedade e em harmonia com o ecossistema. Reorganizando e praticando nosso trabalho dessa forma, poderemos recapturar sua essência espiritual.” (Fritjof Capra)

Li esta frase em um e-mail sobre qualidade do trabalho, que me foi enviado por uma grande amiga. Mas, após a leitura do artigo, o que continuou em minha mente foram estas palavras do autor de O Ponto de Mutação.

Qual o real significado do trabalho nos dias de hoje? E qual a sua função? Serve apenas para pagar as contas? Após um dia extremamente cansativo em meu emprego – como hoje, por exemplo -, certamente responderia que trabalho é sinônimo de exploração contínua, e tem a função de, minimamente, garantir nossa sobrevivência. Mas claro que não penso sempre assim (só nos momentos de revolta, obviamente).

Para refletir sobre o conceito de trabalho e sua prática, voltarei um pouco no tempo. Em 1500, quando os portugueses invadiram nossas terras, o capitalismo já ensaiava seus primeiros passos na Europa, tanto que os habitantes de Trás-os-Montes precisaram atravessar o oceano para saciar sua sede mercantilista de metais preciosos.

Os povos indígenas, porém, desconheciam estas práticas, e quando utilizados como mão-de-obra escrava pelos invasores, fatalmente foram rotulados de preguiçosos e vagabundos. Afinal, os indígenas fizeram “corpo mole” como uma forma de resistência à escravidão? Muitas vezes ouvimos esta explicação nas aulas de História. Na verdade, estes povos tinham uma outra concepção de trabalho.

Para os indígenas, o trabalho era executado de acordo com a necessidade da comunidade. As tarefas, divididas entre homens, mulheres e crianças, eram cumpridas para garantir a sobrevivência de seu povo, diferentemente da visão européia, que primava pela acumulação para a obtenção do lucro. Suas necessidades norteavam suas atitudes.

Com a chegada dos padres jesuítas no continente sul-americano, e a consequente organização das missões – criadas para “proteger os indígenas da escravidão” -, este cotidiano da população nativa se transformou: trabalhava-se em horários determinados, diariamente, e não mais conforme sua necessidade. A mudança na prática do trabalho, então, interferiu também nas relações sociais, na noção de tempo, na exploração do meio ambiente, nas manifestações religiosas, ou seja, na cultura indígena como um todo.

E assim continua até hoje. E não estou falando das populações indígenas: quero dizer que é o trabalho que determina nossas relações sociais, nosso modo de vida em geral. Nem sempre trabalhamos o quanto queremos, nem o quanto precisamos para suprir nossas necessidades. Além disso, muitas vezes, o trabalho acaba interferindo de modo negativo em nossa qualidade de vida.

Comecei este texto dizendo o que penso do significado do trabalho quando estou revoltada. Gostaria de finalizar dizendo o que realmente espero / procuro que o trabalho signifique em minha vida: fonte de satisfação pessoal, meio de fazer algo bom pelo próximo, garantia de qualidade de vida, possibilidade de viver em harmonia com o ambiente. Paz.

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