Ai, ai… Que demora para fazer a primeira postagem! Culpa do meu trabalho, que ocupa, certamente, 80% do meu tempo, sem exageros! Mas não é dele que vou falar agora…

Posso afirmar que ainda criança descobri como o trabalho é fundamental para a vida do homem. Meu pai foi demitido do banco onde trabalhava há 15 anos quando eu tinha apenas 10 anos de idade. Daí em diante, fica fácil imaginar: como um homem de quase 40 anos, só com o Ensino Médio, conseguiria se reinserir no mercado de trabalho rapidamente? Max Gehringer explica… carteira1

Mas meus pais não se intimidam com adversidades, e devo a eles a capacidade de encarar qualquer tipo de trabalho como algo digno. Enquanto o sonho brasileiro não acontecia – a carteira de trabalho assinada, claro! acho que eu estava me referindo à casa própria? – , meus pais encaravam todo tipo de “bico”: papai foi dono de bar, organizador de grupos de consórcio, vendedor de calçados autônomo e de quitandas que mamãe fazia; mamãe, por sua vez, dedicou-se à venda direta de cosméticos e de jogos de panelas a vapor (fazia jantares com as panelas onde já ensinava as futuras clientes como utilizar aquelas engenhocas que cozinhavam a vapor e economizavam gás), além de trabalhar por um tempo em um hospital e loja de presentes. E eu, claro, estava sempre por perto, auxiliando em algo que fosse preciso, aprendendo um pouquinho com os meus super-heróis. Ficou piegas, não? Mas qual criança não vê seus pais como heróis?

Voltando ao assunto, minha primeira experiência de trabalho informal começou em 1996. Ganhei uma bolsa de estudos para cursar a 8ª série em uma escola particular de minha cidade. E não tardou a ser chamada pela diretora em sua sala. Sem meias palavras, ela disparou:

_ Olha, não vou perguntar se você pode ou não, só estou perguntando quanto você vai cobrar para dar aulas particulares semanais de português e matemática para meu sobrinho, e qual o horário e local das aulas!

Espantada e ruborizada, respondi que ia ver o valor e os horários mais convenientes para nós dois. O aluno em questão era meu colega de sala, então, na realidade, eu praticamente seria paga para estudar algo que teria que fazê-lo mesmo se não fosse dar aulas!

profa Na semana seguinte já estava exercendo minha nova função. Sem sair de casa, eu ganhei meu próprio dinheiro durante todo o ano de 1996. E, em vésperas de provas, eu até arrumava outros alunos dispostos a pagar por uma aula de revisão. Não fiz o meu primeiro milhão, mas podia ir a festas com amigas sem ter que pedir dinheiro para meu pai. Bom demais!!!

Pena que não pude continuar com as aulas particulares durante o colegial. A escola não deixava brechas na agenda durante o dia todo e, à noite, ainda inventei um curso técnico para fazer. Dizia assim para justificar o curso de Processamento de Dados: “pai, eu preciso fazer esse curso pois, se não passar no vestibular na primeira tentativa, já terei um diploma que me ajude a arrumar um emprego!”. Pensamento de assalariado, sem dúvida! Resultado: passei no vestibular de primeira, e só aprendi a fazer o programa da calculadora no Clipper. Mais obsoleto, impossível!

O período de 1997 a 1999 não foi o mais favorável no quesito emprego familiar: apesar da constante luta de meus pais, a informalidade pode não ser uma aliada de quem tem que pagar aluguel e todas as despesas de uma família de 4 pessoas. Por isso, mais do que nunca, nestes anos ouvia de meus pais: “Filha, estude muito para ter um futuro diferente e melhor do que o nosso! Se você se esforçar e fizer faculdade, não passará por tudo isso!”. Levava este conselho a sério, preparando-me diariamente para os vestibulares que ia prestar.

No final de 1999, tive uma outra experiência informal de trabalho: um dia, tocaram a campanhia de minha casa procurando uma pessoa que morava naquele endereço antes de nossa mudança. Ao ouvir que eu não sabia seu novo endereço, o homem – acredito que para não perder a viagem – perguntou se eu não queria vender folheados, e deixou um mostruário comigo, dizendo que voltaria no mês seguinte para receber o que tivesse sido vendido. Como não estava fazendo nada, aceitei.

Venda direta não é minha praia mesmo! Além de ter vergonha de oferecer, tinha vergonha de cobrar. Se não fosse a ajuda de minha mãe, não sei quantos calotes teria recebido! Tirei um dinheirinho extra, que foi providencial naquele final de ano, mas devolvi o mostruário no mês seguinte…

No início de 2000, a surpresa: passei no vestibular! Mas, garota moradora do interior, obviamente teria que me mudar para entrar na universidade. Papai me disse: “Parabéns, filha, mas como vamos fazer? Como você vai se manter em outra cidade, sem família?”.   luz2

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